
Todos os anos, dia 21 de Abril, os estudantes brasileiros têm um pequeno descanso de suas atividades escolares e os internautas de Internet Discada podem acessar a Internet durante o dia inteiro. Isso, entre outras regalias que a data proporciona para diversos setores. É feriado nacional, dia de Tiradentes. Mas por que se comemora este dia?
Tiradentes participou da Inconfidência Mineira, revolta anti-colonial (Brasil era ainda colônia de Portugal quando isto aconteceu) que aconteceu em Minas Gerais, pelo fim do século XVIII. Mas seria imprudência falar sobre Tiradentes sem ter conhecimento da época em que ele vivia. Portanto, vamos ver o que acontecia naquela época.
No final do século XVIII, a econimia brasileira estava em crise. A mineração entrava em declínio, e as minas não produziam como antes. A produção agrícola não compensava a diminuição do outro, porque os preços internacionais eram cada vez mais baixos. E, para piorar, Portugal também estava em crise. Mas eles sobreviviam graças à sua vaca de leite, como o próprio rei português disse. E quem era essa vaca? O Brasil, é claro.
O Brasil sustentava todos os luxos da nobreza e da realeza de Portugal, e a mantinha estável. Só que havia um problema: a economia do Brasil estava em crise, pelo declínio da mineração. Resultado? Portugal apertava cada vez mais as tetas da vaca, e a quantidade de leite era cada vez menor. Criaram novas taxas, cobraram tributos atrasados, entre outras medidas. A situação ficou tão insuportável no Brasil que até as elites da colônia ficaram fulas. Todas as classes do Brasil estavam furiosas. Portugal apertou tanto as tetas da vaca que começou a sair sangue: a vaca daria um coice.
Naquela época, os sons da liberdade pairavam no ar. As Treze Colônias Inglês (a parte leste do que é hoje os Estados Unidos da América) se libertaram da Inglaterra, a própria Inglaterra virou uma Monarquia Parlamentar. Os jovens brasileiros ricos iam estudar na Europa, principalmente na França ou em Portugal. E as idéias iluministas pairavam nos livros. Um dos amores dos estudantes brasileiros era uma pilha de livros de vários autores iluministas. E quando eles voltaram para o Brasil, vinham com as idéias do Iluminismo correndo por suas veias, como um veneno. Portugal barrava os livros, mas os estudantes recém-formados arranjavam um jeito de escondê-los em um fundo falso, ou algo do gênero. E, por mais opressor que seja o governo, ele nunca conseguirá fiscalizar o que uma pessoa pensa, não? Eles viam com as idéias na mente, os livros eram para compartilhar com os que não tiveram sorte de saírem do Brasil para obtê-los.
Assim começaram a juntar-se por todo o país rodas de intelectuais, donos de terras e escravos, médicos, advogados, entre outros, para discutir sobre as idéias iluministas e sonharem com um futuro assim para o país. Porém, eles não sonhavam muito alto: Um país independente seria formado por poucos estados, como Minas, Rio e talvez São Paulo.
Assim como no resto do Brasil, os mineiros também começaram a conjurar.
Se possível, a situação do Brasil ficou pior ainda. Os impostos eram de 1.500 kg de ouro para a metrópole toda. Se você contar todo o ouro da sua casa, da sua rua, ou da sua cidade, não chega nem à um centésimo disso. Além do mais, Portugal sempre podia fazer a Derrama, que era a cobrança de todos os impostos atrasados, pegando tudo de valor que as pessoas tivessem. As pessoas de Minas odiavam esta palavra, e também o governador do estado, que era acusado de corrupto e que só favorecia os amigos. Além disso, eles estavam cheios de sonhos, com um país independente, como os Estados Unidos.
Alguns seguidores do Iluminismo começaram a se encontrar. Ah, detalhe: quase todos eram da elite de Minas. Eram donos de terras e/ou escravos, médicos, advogados, proprietários... E só não se podia dizer que todos eram da elite, porque tinha um que não podia ser enquadrado na lista: Joaquim José da Silva Xavier, nosso Tiradentes.
Os inconfidentes mineiros fizeram vários projetos para o momento pós-república. Eles queriam uma universidade em Ouro Preto, e alguns propunham a estimulação da indústria, com a lei de que só poderia se vestir com uma roupa feita no Brasil. Sem dúvida, o Brasil não seria mais o mesmo se eles tivessem conseguido, e este movimento abrangesse estaca nacional. Mas há um detalhe: como maioria era da elite, não poderiam ser tão radicais como na revolução dos EUA. Uns não sabia que regime adotar, a Monarquia Parlamentar da Inglaterra ou a República Democrática dos EUA. Também não iriam acabar com a escravidão, porque maioria tinha tinha muitos escravos, e não queriam perder isto.
Para ter idéia do tamanho da coisa, alguns estudantes brasileiros em Paris conversaram com o embaixador dos EUA, Thomas Jefferson, pedindo ajuda com o movimento. Como os EUA tinham fechado um acordo comercial com Portugal, absteram-se de ajudar.
E a situação piorou, se possível. Os impostos iam se acumulando, já que a colônia não conseguia pagar tudo. E chagaram aos 9.000 kg de ouro. Os inconfidentes planejaram fazer a revolta no dia da cobrança da Derrama, já que calculavam que seria mais fácil a adesão do povo à causa. Só que foram traídor pelo coronel Joaquim Silvério dos Reis e dois colegas, que entregaram seus amigos pelo perdão de suas dívidas. Sim, esses são os Judas Escariotes de Minas. Por que não fazem uma festa de malhação de Judas para os três?
Se bem que tem um Apócrifo que diz que Jesus mandou que Judas o entregasse, para que assim cumprisse sua missão de sacrificar-se para que Deus desse perdão aos pecadores. Ok... Voltemos ao Tiradentes.
Assim que as autoridades coloniais souberam, colocaram todo mundo na cadeia. Tiradentes fugiu e se escondeu no Rio, mas foi capturado. Lá, foi torturado, coisa comum no Antigo Regime. E mesmo assim, não entregou nenhum companheiro. Os documentos oficiais mostram a coragem dele, a valentia de um verdadeiro herói.
Os inconfidentes ficaram "de molho" durante três anos, esperando a sentença. Alguns pegaram mais anos de cadeia, outros foram banidos para Angola, e nunca mais poderiam voltar ao Brasil. E todo mundo sabe a história: o único condenado foi Tiradentes. Por quê?
As autoridades sabiam que aqueles homens ricos, cultos, letrados, sofisticados e estudados nunca iriam aceitar um homem sem cargo de destaque, berço de ouro, riquezas e que nunca esteve na faculdade como seu líder. Ele não era o líder, por que então ele? Ora, ele era o único pobre do grupo. Seria executado para dar exemplo de que nunca mais haveria revoltas anti-coloniais no Brasil. Ele foi executado do Rio de Janeiro, em 21 de abril de 1792. Depois, o corpo foi esquartejado e salgados. Cada pedaço foi fincado em um pedaço de pau, como exemplo para a ralé, um aviso de que quem o imitasse teria o mesmo fim. Porém, mesmo com toda a guarda sobre o corpo, a cabeça foi roubada e jamais apareceu.
Essa é a história real. A que não se conta na escola até os alunos tiverem estômago o suficiente para aguentarem, tendo que passar antes por massacres atenuados da Grécia antiga, Inquisições, Cruzadas e outros, para fortalecer os juvenis nervos. A história escondida atrás do herói pintado semelhante à Jesus Cristo, e esquecida ao longo dos anos.
Tiradentes foi um entre tantos heróis brasileiros que não foi valorizado. Só que agora tem uma data somente para ele. O engraçado é que quase ninguém sabe o que essa data significa. Por que esperamos que nossos heróis morram para vermos o quão valiosos eram? Por que, num dia comemorativo à algo ou alguém, exclamamos "É feriado" em vez de pensarmos em quão importante foi o fato ou pessoa para nós todos? Por que precisamos de heróis? Por que não somos nossos próprios heróis?

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